Provavelmente eu não te amaria

(Leia este texto ao som de Transmissão de pensamento)

Se não fosse pelo teu gosto por música brasileira, eu provavelmente não te amaria. Ou mentiria para mim que não, tentando dizer para meu próprio consciente que uma barbaridade dessas não faz sentido.

Me dou conta disso quando eu olho para os locais que você costuma frequentar. Eu sempre gostei de sossego, desapegando dos meus próprios pensamentos com medo que as dúvidas me devorassem. Você, ao mesmo tempo, sempre gostou de música alta em ambientes fechados com mais gente que o permitido por metro quadrado.

O teu suor me irrita, como o da maioria das pessoas. Nisso, nada do mundo mudou quando aplicado a você. Nem os repúdios, nem a maneira com que eu reviro os olhos quando você limpa os seus com os pulsos. Isso só serve para irritar tuas pálpebras, já percebeu? Eu sim. E isso me incomoda.

Os livros que tu insistes ler são completamente diferentes daqueles que colorem a minha estante. Eu fico observando os títulos. Se não fosse a hora e o lugar certo para a gente se encontrar, provavelmente hoje você estaria em algum lugar da Serra Gaúcha, passando frio e lendo em frente a lareira, enquanto eu tiraria a camiseta para me afundar no mar de alguma praia de Portugal.

Eu sempre preferi os dias quentes, apesar do lugar onde eu moro. Você dizia que isso era por conta do meu apreço pelo que é de longe, que eu carregava uma mania chata de engrandecer o que não fazia parte de mim, tudo pelo fato de eu morar em uma região gelada em um país tropical. Eu concordava. Era impossível não ceder a isso ao olhar para você.

Nas noites frias, enquanto eu insistia por ficar em casa, você me fazia sair para conhecer os restaurantes novos da cidade. Eu sempre gostei de ir aos mesmos lugares, em um ato de segurança que convencia o meu cérebro de que nada valia pagar um absurdo para comer fora de casa se isso não satisfizesse meu paladar. Mas deixar isso de lado não é tão ruim, não contigo.

Com outra pessoa, tudo seria tão comum e banal. Comum e banal.

Eu chego a essa conclusão quando observo teu rosto corar sem se dar conta da zona de conforto que me tirou. Eu sempre odiei isso, mas me preocupo em deixar os berros de repúdio dentro da minha própria cabeça para que isso não chegue aos teus ouvidos. Sem você, eu não faria nada disso. Não em sã consciência. E é aí que você me desarma.

Se não fosse pelo teu gosto por MPB e músicas com sotaque carioca arrastado, provavelmente eu arrumaria um jeito de me convencer que jamais poderia te amar. E tatuaria no meu próprio peito que você não é para mim, que não me completa em nada.

Mas não adiantaria. Seria só uma tentativa fracassada de mentir para mim que não é possível sentir isso por alguém.

Júlio Hermann

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