Nem ditadura da felicidade, nem romantização do sofrimento

Oi, sê bem-vindo. Espero que esse texto te ajude a ser melhor. Fique com Deus. Boa leitura. 💛


(Leia ao som de Broken)

É importante viver e enfrentar as próprias dores, mas é igualmente importante sorrir também.

Me dei conta disso no decorrer dos últimos dias, enquanto terminava de ler a preciosidade de “Um conto de Natal”, do Charles Dickens. Eu sei, parece estranho ler sobre isso às vésperas da Páscoa. Contudo, existem convites singelos ao amor pela vida que são válidos sempre, seja primavera, seja outono.

A nossa geração enfrenta um dilema cruel: ao mesmo tempo em que se engrandece a dor e a luta, e se romantiza o sofrimento vivido no silêncio do próprio quarto, do lado de fora da porta de casa nos obrigam a uma ditadura da felicidade. Ou somos tristes em plenitude, mostrando a todos nossa dor, ou temos o dever de ser felizes. Um ou outro: os dois não dá.

Com um monte de coisas diferentes nos acontecendo o tempo inteiro, é quase evidente que precisamos conciliar as duas coisas, a fim de não surtarmos. Calma, eu não estou falando de acostumar-se a uma montanha russa emocional. É algo mais sútil e natural. Veja bem: cruzes todos temos, ranzinzas todos somos, mas a vida não se resume a isto. Ao mesmo tempo, ainda que sejamos do tipo de gente que está de bom humor às cinco da manhã de segunda-feira, precisamos admitir que nem tudo é rosas. E a arte viver – auxiliada pela graça de Deus – consiste justamente em fazer desse aparente conflito uma harmonia.

Na obra de Dickens, Scrooge é um velho rabugento que não gosta do Natal (gosta de nada, na verdade). Trata mal as pessoas, paga mal o funcionário, não quer ninguém por perto. Até que ele faz a experiência de ser conduzido ao passado, ao presente – com as pessoas que o cercam lamentando o quão ruim ele é – e a um futuro possível da própria existência, que se tornará real caso ele não se converta em alguém com coração. O choque de realidade o obriga a ver o que não quis notar no decorrer dos anos e ele cai em si.

O drama da personagem é que ela se encontra diante de uma realidade em que as pessoas não conseguem se sentir felizes na sua presença. Mas a grandeza da obra está justamente no modo como a trama se desenvolve a partir disso: ao invés de lamentar e se jogar nos braços da dor, o sr. Scrooge a pega nas mãos e reconhece que a culpa é do seu jeito egoísta e avarento. Decide, então, mudar de vida e reconhecer que no peito dos outros batem corações como o dele – mais nobres até. Do que vê, tira as forças necessárias para se preocupar em ser feliz.

Nós, quando percebemos os outros melhores em algo, fazemos o quê? Qquando nos enxergamos imersos na tristezas, agimos como?

Se pararmos para pensar, não é difícil ver o drama que acusei acima. Por conta da imposição externa que recebemos para romantizar o sofrimento ou da ditadura da felicidade, nos tornamos juízes também: valorizamos demais os dilemas dos outros e nos vemos pouco; ou, quando nos enxergamos, ao contrário, tendemos a ser egoístas e vermos apenas nossas próprias questões. Acabamos enfrentando tudo de modo parcial, ignorando que há nobrezas e misérias tanto em nós como em quem nos rodeia. Esquecemos que nossas lutas são nossas, sim, mas um pouco também de cada pessoa que topa a vida conosco – e as deles são um pouco nossas também.

A questão central não é simplesmente viver para enfrentar as próprias dores ou ignorar o que nos toca e sorrir o tempo inteiro, mas um pouco das duas coisas. Se esperamos pela paz completa para dar risada, não sorriremos nunca. Igualmente, se ignorarmos o que nos acontece e debocharmos da vida, nossos problemas não se resolverão.

O desafio é encontrar a nossa pedra no sapato e, tendo ela nas mãos, buscar a tal harmonia. Assim, como o Scrooge – mesmo sem viajar no tempo – conseguiremos cair em si.

Júlio Hermann.


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