Como eu poderia atender o pedido de te esquecer

(Leia este texto ao som de Roses)

Eu fiquei pensando sobre nós durante muitas semanas depois que acabou. Você me disse que eu não deveria, que era preciso esquecer, deixar de lado, colocar uma pedra em cima da história toda. Mas eu não dei ouvidos. Quer dizer, até tentei dar. Mas como eu poderia?

Fiquei remoendo durante domingos inteiros a falta dos nossos cafés da manhã comprados em padarias baratas. O seu chá sempre sem açúcar, o meu sempre melado e cremoso pelo excesso de doce. Nisso a gente não se entendia muito, mas existiam as outras coisas. Aquelas que, num dia, tristemente passamos a desconsiderar.

Eu precisava registrar os fatos para entender o fim.

Foi numa noite de quinta que sua mão não tocou a minha na hora de atravessar a rua. Foi numa segunda abarrotada de reuniões que você não passou lá em casa depois do expediente – porque no dia seguinte você passaria de novo, e no outro e ainda no outro. Até que a ausência isolada passou a ser rotina.

Me culpei por ter te culpado pela escolha de tentar ser feliz outra vez, porque uma hora histórias acabam e ensinam o que precisam ensinar. É assim que funciona, não é? Eu só não quis aprender. Quem em plena dor quer? Quem joga a toalha antes de esgotar completamente o tempo do cronometro?

E você só me pedia para seguir em frente sem chorar muito.
Só?

Cortei o cabelo, fiz uma tatuagem, pedi demissão e viajei três semanas inteiras na esperança de me encontrar sem você. Você me sugeria não pensar muito, não criar teorias, não dar passos inúteis em direção ao passado atrás de nós. E funcionou todos os dias até o por do sol, mas isso caia por terra sempre depois de eu colocar a cabeça no travesseiro e lembrar de tudo.

Mas eu não te culpo. Você merecia ser feliz. Eu também merecia.

Eu só não sabia como. Não sabia onde. Não sabia com quem que não você.

Mas uma hora saberei.

Júlio Hermann


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Créditos da foto: Flora Westbrook

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