Para quando eu pudesse te ter

(Leia este texto ao som de Wherever You Are)

Eu resolvi começar a te guardar em mim pelos olhos, no primeiro passo que você deu e minhas retinas captaram. Guardei para entender depois se era miragem ou alguma coisa real, daquelas que eu seria capaz de tocar com os dedos se conseguisse manter por perto.

Você parecia diferente de todas as pessoas que eu havia tido comigo. E eu gostava disso.

Tentei não me precipitar pensando sobre isso enquanto ainda carregava o peso do mundo sobre as minhas costas e você ia se aproximando. Eu precisava enfrentar as dores que sempre sobram quando os ciclos se encerram, na esperança de estar pronto para uma outra vida quando amanhecesse dentro de mim. Talvez com você.

E você se mantinha ali, acesa em algum lugar. Com a voz, o toque, o afeto.

Eu ia enfrentando minhas guerras como dava. Não seria justo que eu te contasse sobre tudo que eu sentia com tantos monstros que me encurralavam à noite. Você precisava ver como o meu peito pulava de um lado para o outro quando eu te via chegar mais perto. Como ia perdendo o fôlego ainda que estivesse parado no mesmo lugar.

Precisava saber dos momentos que chorei, das dores que senti por não conseguir te trazer para perto de verdade. E eu queria muito.

Enquanto seus olhos se mantinham ali, diante do mundo, olhando para tantas outras coisas que não eram eu, o meu medo do escuro aumentou. Não pelos monstros, dessa vez. Mas pela sensação de te estar deixando passar e permanecer imerso nas minhas lutas, sabe?

Lutei para te dizer, mas repeti para mim que não era justo.

Te guardei na esperança de acordar todos os dias lembrando que o sol nasce no outro lado do mundo quando faz noite aqui. Para quando eu fosse forte e livre o suficiente para te trazer comigo, entende? Talvez, quando esse dia chegasse, eu pudesse te ter em mim.

Eu só precisava aguentar mais um pouco.

Permaneci registrando, como podia. Seus sorrisos. Seus olhos. Seu jeito de caminhar fisicamente para mais longe de mim em todas as vezes que a gente se despedia. Mas eu ainda não podia te ter; não enquanto estava me reconstruindo.

Mas logo poderia, se você quisesse.

Júlio Hermann


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