Enquanto eu ainda te tinha

(Leia este texto ao som de Smother)

O som da tua respiração colidindo com o meu tímpano. Os passos que você dava enquanto se aproximava e afastava de mim. As palavras que me faziam rir. Os desafios que eu aceitava sem saber se era exatamente capaz de executar. As tentativas de estar mais próximo.

São as coisas que eu mais sinto falta em você.

No silêncio do meu quarto, com as luzes meio acesas meio apagadas, me pergunto como ficou o teu coração depois do último dia em que pudemos nos ver. Você sorria entre as lágrimas, me pedindo para ficar bem. Será que a saudade que você sentiria seria tão intensa quanto a minha daquele segundo em diante? Evitei me perguntar isso pelos dias que se seguiram.

Você foi a primeira pessoa a conhecer os meus demônios. A perceber o som das suas vozes, o frio das suas presenças, a influência que eles tinham nas decisões que eu tomava. Eu nunca tinha tido coragem de abrir o peito para alguém assim, a ponto de a felicidade me fazer vulnerável.

E quanto eu mais abria, quanto mais sentia, quanto mais queria, mais eu fui me acostumando com você.

Nas conversas que nós tínhamos entre as paredes do quarto você me dizia que éramos impostores neste mundo, tomando posse de tudo o que não era nosso por um intervalo de tempo que poderia acabar antes de o sol nascer outra vez. Eu sabia que nosso tempo seria limitado, mas achava poético, mesmo que isso não removesse meu medo – sobretudo de te perder.

Quando aconteceu, eu não soube o que fazer com o chão abaixo dos meus pés. Dizem que quando algo ruim acontece, perdemos a base. Não sei se concordo com isso. O concreto que me sustentava não sumiu, apenas ficou absurdamente gelado. Meus pés colaram nele, a ponto de o frio subir pelas minhas pernas e preencher o resto do corpo.

Eu fechei os olhos para sentir o som da sua respiração, os seus passos pelo asfalto, o som suave da sua voz ultrapassando a barreira do meu peito, os desafios que eu aceitava porque amava você. Onde quer que você estivesse, você entenderia e sorriria por isso. Eu tinha certeza.

Meu sorriso era emprestado de você, mesmo quando você precisou se ir.

Júlio Hermann

(Inspirado em Five Feet Apart)

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