O que me convinha

(Leia este texto ao som de Daughter)

Eu queria lembrar com mais certeza das coisas que um dia você me disse. No escuro da cidade, onde a luz dos postes não tinha força suficiente para nos iluminar. Estava tudo deserto, lembra? Eu te envolvi nos meus braços em um instinto de proteção que não te tocou por dentro. E registrei na memória o que convinha.

Nas paredes do meu quarto permaneceu impregnada naqueles dias uma certeza absoluta de que daríamos em alguma coisa. Eu te enxergava feito aqueles adesivos de borracha que brilham no escuro. O teto era um aglomerado imenso de estrelas, cada uma com uma sílaba do teu nome.

Era isso que eu enxergava, mas as coisas não foram exatamente como eu queria.

Eu quis muito poder contar outra história para as pessoas. Dizer dos nossos dias, dos jantares fora da cidade para fugir dos rostos conhecidos, dos detalhes que eu não guardei porque não pareciam importantes, das viagens a cinemas distantes para não assistir cena alguma de um filme que falava sobre nós. Talvez, se eu tivesse prestado atenção na sinopse eu teria entendido.

Mas não entendi.

Deu tudo certo durante aqueles meses, dos nossos abraços aos silêncios que ficavam no quarto enquanto você acariciava as minhas mãos. Pelo menos era essa a visão que eu tinha. Eu permaneci te escrevendo por uns dias, sem tentar medir tanto passado e futuro, mas palavras registradas em folhas digitais nunca causaram um efeito real a quem fomos.

Vida que seguiu, apesar de tudo. Não existe nada de místico em amores que acabam em noites frias de dias úteis. Tentei te segurar comigo, tentei te segurar em mim quando te ter por perto já não era possível. Uma hora você teria que partir…

Guardei o que me convinha, porque sempre fazemos isso.

Quando aconteceu, eu só desejei que sua viagem fosse longa e feliz. A minha tem sido.

Júlio Hermann


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