Talvez não fosse para ser

(Leia este texto ao som de Moving On)

Na madrugada, quando já não havia ninguém acordado em casa, você levantava os olhos em direção ao horizonte na janela e rezava pedindo calma. Era uma das coisas que eu mais admirava em você. Eu ficava pensando em quando eu conseguiria ser assim também, bom ao ponto de tentar canalizar minha própria angústia para não atingir o outro com o que era meu.

Eu me encantei fácil, sabe? Primeiro pelo vislumbre de enxergar em você um desapego do mundo, enquanto eu não aguentava ficar quinze minutos longe do celular para olhar as notificações. Depois, porque você valorizava tão mais o que era intrínseco ao que era real ao tato. Eu gostava de tocar a vida com a ponta dos dedos, você fechava os olhos.

O que te fazia tão diferente de mim?

Não poder te levar comigo foi uma das maiores dores da minha vida, porque eu queria, queria muito poder. Mas seria justo? Haveria justiça em te mudar para se adaptar a uma vida que poderíamos vir a construir com tanto esmero e dar em nada? Eu me perguntei isso por semanas.

Comecei a frequentar consultórios médicos por não saber como lidar com isso, minha rotina de confissões sacramentais dobrou de carga horária. Eu queria me tornar um pouco mais parecido com você naquilo que me atraia, seja na fé em ser melhor que ontem, seja no desapego do mundo material que causava gatilhos na minha sanidade.

Precisei colocar a mão no peito, fechar os olhos, prender a respiração. Durante noites inteiras eu mantive o olhar no meu horizonte, rezando para que o seu caminho fosse longe e bonito, apesar de diferente do meu. Quis te pedir perdão pelas coisas que não fui capaz de dizer, quis colocar uma pedra no orgulho ressentido que havia em mim.

Quando a gente estava junto eu coloquei os meus joelhos no chão pedindo para que Deus fizesse o que quisesse de nós. Talvez ele tenha feito quando deixamos de ficar juntos, nunca saberemos. Mas é melhor assim.

À noite, quando não tem ninguém acordado, eu agradeço a tranquilidade que aprendi a ter com você.

Júlio Hermann


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