O amor me permitiu viver

(Leia este texto ao som de The Night We Met)

Muitos dos textos que eu escrevi até hoje me foram arrancados das tripas. Eu precisava botar para fora tudo o que sentia e me incomodava, assim mesmo, de um jeito nem um pouco romântico. Afinal de contas, escrever sobre o amor é rabiscar palavras sobre os outros e sobre si.

Senti muitas vezes o medo me encurralando por receio de que você não me entendesse. Talvez eu não parecesse ter carne, ossos e órgãos por debaixo da pele para sentir as coisas que você sentia. Nós conversávamos horas e horas sentados no cordão de uma rua qualquer durante o início das noites mas nunca nos entendemos em plenitude, se deu conta? Você parecia não enxergar minhas dores, nem eu.

O amor me permitiu continuar a existir, apesar de tudo. No meio de tanta coisa que me trancava a circulação, eu precisei de afeto para dar movimento ao sangue que ainda corria nas minhas veias. Não precisei de transfusão, não até agora, mas foi como se eu tivesse a necessidade incessante de me reabastecer do zero outra vez. E isso me doía, apesar das aparências.

Você sorriu em muitas noites, eu retribui em muitos dias, ainda sem saber onde a vida ia dar dali a alguns meses. Teus olhos sempre me pareceram um oceano inteiro quando eu os olhava e me perguntava se tua mente permanecia no mesmo lugar do mundo que o teu corpo. É difícil sincronizar a psiquê com a carne de vez em quando, né? Eu te entendo.

Eu segurei o teu rosto e beijei a tua bochecha esquerda porque nós dois precisávamos de afeto, mesmo não sendo ele suficiente em si. O escuro te assustava –  assim como a mim -, mas nós tínhamos que encarar tudo para conseguir ter algum mérito no fim.

Hoje, com o mundo completamente diferente, eu sei que não quero perder aqueles tempos de mim nunca, mesmo que em algum momento a minha existência acabe por impôr isso. Você me habita como as tripas que gritam para que eu escreva em tardes de domingo.

Sei disso porque no sábado, no meu aniversário de vinte e um, senti necessidade de colocar tudo para fora outra vez. Dedo na garganta e saía o que tiver que sair. Eu ainda não sabia no que ia dar o exercício de tirar palavras dos órgãos que só faziam operar em velocidade normal dentro de mim, mas precisava tentar.

Acabou que o amor me permitiu mais um ano de vida.

Júlio Hermann

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