Sobre ter que fazer as pazes consigo mesmo

(Leia este texto ao som de Apologize)

Eu passei por dias difíceis com a escrita recentemente. Por um intervalo de tempo que parecia interminável, tudo começou a ir de mal a pior. Independente do número de tentativas de escrever um texto decente que eu acumulasse, nada parecia sair como deveria. Em todos os momentos a sensação que eu tinha era a de estar maltratando a língua portuguesa e a mim mesmo.

Foram dias em que eu tentei tirar água de pedra. Bati martelo contra a camada rochosa da minha mente, perfurei a superfície na procura de alguma nascente de criatividade que, talvez, estivesse escondida dentro de mim. Mas nada de positivo resultou do processo no primeiro momento. Enquanto tentava, foi como se a minha disposição para o mundo tivesse escorrido feito água pelas minhas mãos.

O período foi de seca, por mais que fizesse tempestade aqui dentro. Conversando com algumas pessoas da minha vida, o reflexo era sempre o mesmo: parecia que eu havia cansado das palavras, e elas de mim. Não havia sintonia ali, como se não nos suportássemos mais e precisássemos de férias um do outro. Era necessário fazer uma pausa. Resolvi, então, tomar mais cuidado com elas em uma tentativa de fazer diferente desta vez e acalmar o atrito que havia se formado entre nós.

Foi o momento de ser mais cérebro do que coração. Era preciso colocar um pouco de racionalidade nas palavras porque o meu peito já não era capaz de se derramar através delas por conta própria. Pontuar tudo direitinho era o movimento necessário e imediato a se fazer. Eu precisava colocar meus próprios pingos nos “is”, me encarando no espelho e entendendo que momentos de seca sempre farão parte do percurso.

A primeira coisa que me veio à mente foi o título do livro de um amigo meu. Guilherme Pintto escreveu em mais de duzentas páginas sobre como é importante ser o amor da própria vida. Eu concordo com ele sobre a necessidade de se amar, no entanto, nunca havia me dado conta dos conflitos internos que podem surgir dessa relação. E quanto fazer as pazes consigo mesmo é necessário para seguir caminhando…

Foi aí que eu resolvi bater mais um pouco na minha cabeça dura para tirar algo importante de dentro de mim. Como eu e as palavras somos velhos amigos, resolvi pedir ajuda a elas, por mais que a relação não estivesse tão boa. Esse texto é meu espelho e meus pingos nos “is” deste processo. Eu não pensei em desistir, não deixei de lado a revisão do livro novo (que terá bastante amor, eu prometo), mas precisei adiar o que escreveria hoje nesse site para dar a mim mesmo uma carta de alforria.

Deus sabe o quanto esse processo me inquietou, mas se todo o problema habitava dentro de mim, era da mesma nascente de inquietação que precisaria sair a calmaria da reconciliação.

A tempestade acalmou um pouco, assim como a minha situação com as palavras está mais amistosa. A nossa relação sempre foi bonita, mas não deixou de ter seus conflitos por isso. Com o tempo vamos fazendo as pazes em definitivo. Até que isso aconteça de fato, eu sigo insistindo em tirar palavras das pedras que habitam meu interior. Uma hora elas cedem e voltam a sair de mim com naturalidade.

Por enquanto, eu busco fazer com que saia algo de útil dessa batalha. Afinal de contas, existe muito amor para ser escrito por aí.

Júlio Hermann

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