Talvez o amor seja simples

(Leia este texto ao som de Cataflor)

A última semana foi a mais corrida da minha vida. Entre um aeroporto e outro, correndo contra o tempo para fazer tudo o que meu coração e a vida pediam que eu fizesse, eu permiti que a falta de tempo falasse mais alto do que quem eu sou. No meio de tanto afeto dado e recebido, eu não consegui estar com aqueles que eu amo.

Poucas ligações, quase nenhuma mensagem para dizer que estava tudo bem. Contato quase zero. Isso tudo me fez repensar muitas coisas.

Eu gosto sempre de olhar o amor sob a perspectiva de São João Paulo II, encarando uma realidade em que o próprio sentimento explica tudo. Nem sempre há sucesso, por mais que eu saiba que no fundo as coisas costumam ser assim.

Eu estive o tempo inteiro em contato com gente incrível que veio a mim para iluminar tudo, mas ao mesmo tempo, vi minha mente fugir do local onde o meu coração havia permanecido. Como lidar com a complexidade de estar em tantos lugares ao mesmo tempo? Como provar para eles que eu os amo quando os meus stories parecem mais importantes que tudo o que tenho feito por eles? Como provar amor em tempos em que tudo precisa de ciência para ser decretado?

Talvez não seja preciso.

Percebi isso quando estava prestes a desembarcar em Porto Alegre. Na volta para casa noite passada, eu passei a viagem inteira olhando no banco da frente um garoto de cinco anos fazendo caretas para a tela do celular e sem olhar muito para o próprio pai, sozinho ao lado. As caras me fizeram rir. Era eu ali, vivendo pequenos momentos da minha vida longe de tudo. A mente do menino estava longe do avião, a minha havia ficado distante de casa por uns dias. Não era proposital.

Mas o amor explica tudo, não explica? E é tão simples.

Quando o avião pousou e o pai estava prestes a levantar do assento, o pequeno pulou com os braços ao redor do seu pescoço e disse um ‘eu te amo’ sorrindo. Não era preciso mais nada. Não havia coisa alguma a mais para ser justificada.

A ameaça de paranoia que minha mente poderia criar sumiu de imediato, na medida em que meus olhos se enchiam de lágrimas. Aquilo valia muito mais do que uma viagem com momentos passageiros. Era definitivo. E continuaria a ser, como havia acontecido apesar da falta de assunto dos dois.

Nós vivemos em um tempo em que o amor parece ter deixado de ser simples. Eu me sinto refém desta realidade. É necessário ser tudo o tempo inteiro, é fundamental mostrar para o mundo como o sentimento é grande ao ponto de não caber no peito. Será mesmo?

Cada dia mais eu tenho certeza de que o amor habita as pequenas coisas. Nem sempre ele consegue estar à frente de tudo que desloca nossas vidas, mas, ao mesmo tempo, é a única coisa que decola e pousa com a gente em todas as viagens que fazemos.

É tão simples como o ar que adentra nossos corpos para permitir a vida.

Difícil talvez seja a maneira com que lidamos com ele.

Júlio Hermann

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