Às vezes eu preciso sair de mim

(Leia este texto ao som de Paper Heart)

Depois de um dia cansativo, voltando para casa, o carro em que eu estava parou de funcionar no meio do nada. Sem sinal de celular, sem chance alguma de comunicação com o mundo. O motorista que conduzia o veículo conseguiu contatar o seguro, mas eles demoraram duas horas e meia para chegar e buscar a gente.

Nesse meio tempo, a sensação que eu tinha era de um imenso nada. Para me fazer companhia, sobrou o amigo que dirigia e minha mente imersa em uma incredulidade que chegava a ser engraçada.

O que eu faço da minha vida quando as coisas não saem como eu quero?

Essa foi a primeira pergunta que dominou meus pensamentos depois de eu me dar conta do que estava acontecendo ali. Eu tinha um monte de coisas planejadas para fazer ao chegar em casa, meu dia estava longe de terminar. Se fosse um tempo atrás, eu me auto corroeria em agonia por estar perdido e desamparado no interior da cidade. Tempo desperdiçado, né? Um pedaço precioso da minha vida jogado fora. Nada de útil para se fazer.

Ao invés de explodir, uma voz insistente na minha mente tentou me dizer que talvez fosse melhor assim.

Ao longo dos anos, de quantas furadas eu devo ter me livrado por que as coisas não saíram como eu queria? Muitas, imagino. Assim como poderia ter acontecido uma tragédia muito maior no meu retorno para casa se tudo tivesse transcorrido no tempo previsto. Qual seria o meu destino se tudo tivesse dado certo como eu planejava, eu não sei. Mas, ao mesmo tempo, fiquei mais grato por reconhecer que as situações em que me senti impotente ao longo da minha existência moldaram o cara que sou.

Quando acontece de as coisas não saírem como a minha vontade pede, meu peito esperneia. Não entende o acaso, parece não deixar brecha para erro. Acredito que isso seja comum. Às vezes acho que o mimo demais. Mas, fazer o quê?

O que eu entendi às duras penas foi que as coisas não tem que ser como eu quero que sejam. Talvez, eu nem esteja querendo o que é melhor para minha vida. Que tudo aconteça como deve acontecer, então.

Quando cheguei em casa, agradeci por estar bem e pela oportunidade de tirar um tempo para mim. Enquanto estava lá, esperando, nada aconteceu. O mais útil que eu fiz foi rabiscar o início deste texto, dando a liberdade que os pensamentos pediam para existir por si.

Às vezes, momentos de exílio são necessários para que a gente entenda que existe algo fora da correria. E para que possamos nos entender também.

Júlio Hermann

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