Das coisas que você causou em mim

(Leia este texto ao som de Sem radar)

Você apoiou os cotovelos sobre a mesa do café e eu pude reparar a vergonha no modo com que baixou os olhos. Me disse que sentia alguma coisa estranha dentro de si, que era tímida demais no início, que nem tudo seria o tempo inteiro assim. Eu ri.

Com as pernas tremendo embaixo da mesa e torcendo para que você não visse o jeito como eu tava inquieto, tentei dizer que estava tudo bem. Ria de nervosismo, tentava falar dos outros para não entregar demais sobre mim. Contei das pessoas da minha vida, perguntei das suas, tudo isso na busca de uma realidade apressada em que eu pudesse te trazer para perto de mim.

O tempo é curto e você sente frio, não sente? Eu queria falar sobre as coisas que sinto, mas vivo com um medo enorme de te assustar que me encurrala em um canto escuro. Houve um tempo, veja bem, houve um tempo em que dizer as coisas era mais fácil para mim. Não existia o brilho dos teus olhos e eu andava longe demais de sensação estranha de perceber o corpo inteiro entrando em transe por estar perto de alguém. Parecia fácil demais. Mas abrir o próprio peito para quem se quer bem é um pouco mais estranho quando a gente não sabe exatamente o que dizer.

Falei sobre o brilho dos teus olhos, contei sobre as coisas que me tiram o sono e o modo com que eu tento levar uma rotina diferente das outras pessoas por aí. Só para ver se você sentia compaixão, que seja; só para ver se você encontrava qualquer fragmento que identificasse teu coração com aquilo o que eu sou.

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Nos papos sobre literatura, nas conversas sobre política, nos relatos sobre as coisas do céu e nas crenças sobre amor, você arrancou alguma coisa de mim. Talvez o medo, talvez um pedaço que ficou contigo e nunca mais volte a ser inteiramente meu.

Você deitou a cabeça sobre a almofada do sofá da sala e eu pude reparar no modo com que as coisas reverberaram aqui dentro. Você sentia vergonha. Eu senti algo estranho aqui dentro. Fiquei com medo de dizer que gostei mais de você do que fui capaz de imaginar quando vi pela primeira vez o desenho do teu rosto na tela do meu computador. Fiquei com raiva de mim quando cheguei em casa por não ter te contado um pouco mais sobre as coisas que você faz em mim.

Mas tá tudo bem. Com a memória voltando no tempo de instante em instante, meu peito sabe que não falta tanto tempo assim para eu te ver outra vez.

Júlio Hermann

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