A gente não queria dizer adeus

(Leia este texto ao som de The Lumineers – Sleep On The Floor)

Terminei uma leitura há pouco e parece que um caminhão passou por cima do meu peito. Demorei uns segundos para voltar a respirar normalmente, um tempo um pouco maior para discernir as coisas da maneira com que pareciam ser.

Acontece algumas vezes na vida de morrermos e não virarmos pó.

De vez em quando nos destruímos por completo quando pessoas importantes de nossas vidas vão embora sem que possamos nos despedir. Viramos o rosto de lado, escoramos no travesseiro, passamos noites atrás de noites em claro para tentar localizar o ponto-limite em que as coisas explodiram. Só enxergamos fumaça.

O peito fica pequeno demais para suportar tanta coisa de uma só vez. A gente tem certeza que nunca, mesmo que o tempo seja generoso demais conosco, as coisas serão como chegaram a ser. Voltamos a ficar bem, sim, mas nunca é igual antes. Nem parece suficiente.

No livro, duas pessoas com bagagens emocionais extremamente pesadas se apaixonam uma pela outra. Bate esperança, bate cansaço, bate vontade de cair de cabeça no mundo outra vez. Até que uma se despede dele.

Ficou martelando essa cena na minha cabeça por uns minutos. O quanto estamos aqui, à mercê do universo, e o quanto ele pode nos virar do avesso num estalar de dedos. Uma vez que decidimos nos jogar inteiros para dentro de alguém ou de algo, assinamos o contrato involuntário de carregar nos ombros o que pode vir a acontecer.

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Pensar assim parece cruel, mas não pode nos fazer parar a vida e esperar que as coisas aconteçam. A gente beija, abraça, entrelaça uma mão na outra, acorda num domingo chuvoso com os lençóis amassados e um desejo de ver o universo parar do lado. Até que algo passa por cima de nós.

Fica o corpo marcado. Incomoda um pouco quando nos olhamos no espelho. Mas o que seriamos nós se não nos permitíssemos amar e viver quando sentimos que devemos?

A vida é isso também. E nada além disso levaremos conosco quando for nossa vez de virar pó.

Júlio Hermann

 

*Este texto é inspirado no fim do livro O Garoto Quase Atropelado

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