Uma hora essa fase passa

(Leia este texto ao som de Blame It on Me)

Tô atravessando uma crise brava de criatividade. Faz mais de semana que me ponho a escrever e sai nada. Chuto parede, berro pelos corredores do prédio, recebo multa diretamente da portaria por excesso de barulho tarde da madrugada. Leio livros que não estava disposto a ler. Vasculho, cavoco, faço buraco na terra para ver se encontro um pouco que seja de inspiração. Mas as coisas não são assim. A fase é só um reflexo barato de como minha vida amorosa tem sido.

Tenho em mim uma certeza absurda de que todas as coisas são uma só. Se alguma parte da minha vida vai plenamente bem, então não tenho motivo nenhum para achar que algo está errado. Se alguma coisa insiste incomodar aqui dentro, parece que o resto todo está ruindo junto. Tentei mudar algumas vezes, mas parece que tudo se mistura dentro da cabeça.

Até uns dias atrás tudo ia bem demais por aqui. Literatura fluindo, encontros frequentes com gente que me faz bem, uma série de planos sendo postos em prática e saindo como o esperado. Até que parou. Diferente do que acontece com a maioria, não sofri um duro golpe que coloca as coisas todas do avesso. Foi calmo, foi lento. Minha vida parou de se locomover com o pé no acelerador.

Foi então que parei para pensar na última vez que amei alguém. Calma, ficou estranho. Parei para pensar na última vez que senti vontade de dividir cada pequena migalha da minha vida com alguma pessoa que não leva o mesmo sobrenome que eu. Pensei nas últimas noites de insônia e nos nomes que me tiraram do eixo tantas vezes, mas já não tiram mais. Parece tudo linear demais agora. Parece que eu parei.

Já não há dor. Não sei ao certo se chegou a haver, para falar a verdade. Mas creio que sim ou algo parecido nas noites em que o peito não cabia dentro de si. Parecia não haver muito sentido com o que aconteceria depois se não fosse da maneira com que meu peito parecia querer. Até que parou também. De querer. E de doer.

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Ao mesmo tempo em que lembro desse amontado de coisas que só faz a cabeça dar nó, sobe à memória as outras vezes em que tudo foi assim. Não é a primeira vez que me encontro longe da criatividade tampouco que não tenho pretensões amorosas com ninguém. É só mais uma vez. E vai passar, como as outras passaram depois de um tempo.

Tô atravessando uma crise brava, sim, mas logo eu chego no fim da trilha ou me adapto à ela. No fim das contas, importa mesmo que não deixemos essas fases chatas afetarem a forma com que aprendemos a amar a vida e o desejo quase utópico de encontrar alguém que encaixe em cada uma das coisas que carecem de amor dentro do peito.

Júlio Hermann

2 comentários sobre “Uma hora essa fase passa

  1. Ana Laura disse:

    Todas as vezes que leio seus textos me pergunto se devou ou não deixar um comentário, mas no mesmo momento me respondo, pensando e afirmando que é impossível não deixar minha satisfação e admiração do seu dom.
    Sou incapaz de não expressar, meu encaixe em cada palavra lida, que meu coração se acalma ao se identificar com a crise que vem passando, percebendo que não é só ele que quer amar.
    Júlio sou eternamente sua fã literária e de alma.

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