Não morra engasgado

(Leia este texto ao som de Whataya Want From Me)

Sabe uma coisa que deve doer pra caralho? Morrer engasgado. E quando digo morrer engasgado, não é morrer com alguma coisa que te fecha a garganta, prende a respiração e faz tossir, mas com algo que ficou entalado e martela feito britadeira um pouco mais embaixo, do lado esquerdo do peito. Morrer, nesses casos, é ver alguém partir.

Aprendi com Bovolento – e com a vida – que quando a gente não diz o que sente, o outro vai embora sem saber que talvez tivesse um motivo pra ficar. Aprendi depois de ver um bando de gente passar por mim enquanto eu permanecia na inércia – e sempre vemos na inércia um ponto de conforto que a achamos que nunca passa, mas passa. Aprendi depois de passar para um monte de gente também.

A verdade é que nenhum de nós tem bola de cristal –nunca sabemos o que o outro sente até dizer -, e demonstrar interesse em tempos como esse é sentença de morte, é suicídio sentimental e autossabotagem. Mas tem um monte de coisa errada, gente. Autossabotagem é morrer engasgado e ver a pessoa partir com um livro entalado na garganta pronto para sair e que permaneceu por medo de ser dito. É ver o alguém partir e ter que conviver com um nó embrenhando na garganta e criando raiz um pouco mais embaixo.

Não tem remédio pra isso.

Não tem Rivotril que dê jeito.

O problema nisso tudo é que se remamos contra a maré, vomitando as coisas todas pra não morrer engasgado, somos tachados de atirados. Mas qual o problema em dizer pro outro o que a gente sente? Qual o problema em cair de cabeça em águas profundas e convidar o outro pra navegar junto? Já passou pela cabeça de vocês que o outro pode estar de remo na mão esperando um convite pra encarar as ondas com você? A verdade disso tudo é que esse é um problema universal. Todos nós passamos por isso porque todo mundo já sofreu por medo de rejeição.

(Me siga no instagram | facebook | twitter)

Todo dia um bando de gente tem passado porque não tinha um motivo pra ficar – ou tinha, e não viu. Todo dia um bando de gente fica sozinha na orla, porque não vomitou o que sentia por medo de se atirar no mar, por medo de dar de cara com uma onda que o engula e leve o remo embora. Todo dia um bando de gente morre engasgado – e não deve haver nada pior do que morrer engasgado. Deixar alguma coisa entalada na garganta nos faz acordar todos os dias com o pensamento em uma coisa que poderia ter sido e não foi.

Se eu pudesse deixar um conselho: se atira, gente. Se atira, que é melhor encarar um naufrágio do que o espelho toda manhã, convivendo com o que não é e poderia ter sido, mas não tentamos para saber. Se atira, que lá embaixo, nas profundezas, o mar é mais bonito. Se atira que encarar as ondas é bem melhor do que permanecer assistindo tudo da orla e vendo o barco ir embora. Se atira, que morrer engasgado deve doer pra caralho, e do outro lado pode ter alguém com o remo na mão te esperando pra navegar.

Júlio Hermann

(Este texto foi originalmente publicado por mim no boteco)

5 comentários sobre “Não morra engasgado

  1. Débora Gabrielle disse:

    obrigada Julio, de verdade. passei metade da vida me culpando por sentir e falar agora vejo que me sentiria infinitamente pior se não tivesse falado. obrigada, ótimo texto, mudou me dia.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s